Escrever com sotaque
A intenção de escrever um artigo bom e impactante para o nosso público incita uma obstinação por regras gramaticais acima de quaisquer outros aspectos, ou ainda temos a intenção de mostrar um elevado domínio do…
A intenção de escrever um artigo bom e impactante para o nosso público incita uma obstinação por regras gramaticais acima de quaisquer outros aspectos, ou ainda temos a intenção de mostrar um elevado domínio do vocabulário, rebuscando termos.
Será isso mesmo o que mais importa? Sabemos todos, é verdade, que existe uma pujante distinção entre as linguagens oral e escrita, onde a primeira tende a ser mais informal, coloquial e a segunda é a linguagem mais cuidada e formal.
Ocorre que é nos diálogos coloquiais, nas esquinas com amigos, no avião ou no bar em que a espontaneidade impera e as palavras fluem para transmitir exactamente o que queremos. Nesses ambientes, a pronúncia, os vocábulos e as formulações seguem à risca o nosso sotaque e somos compreendidos da melhor maneira, tornando o diálogo sempre mais original.
Ora, por que então temos dificuldade imensa em transmitir este sotaque ou esta identidade aos nossos textos quando publicamos um artigo? Em diversos mundos em que estamos inseridos (mundo corporativo, mundo associativo, mundo da influência, etc.), a originalidade tornou-se um instrumento para se destacar. Se 5 autores focam em aspectos formais das suas elaborações em prejuízo das suas próprias identidades e originalidades, logo os artigos de opinião nos jornais serão sempre os mesmos textos chatos.
A única saída para deixar de ser chato é ter sotaque, é permitir que à partir do seu texto possamos identificar pedaços de si. O murro na mesa, o aperto de mão, a palmada nas costas que muitas vezes caracterizam um diálogo oral tête-a-tête podem e devem ser transferidos ao seu texto de modo que o possamos reconhecer. Abaixo temos um exemplo do sentido de como os nossos textos podem moldar a nossa identidade diante do nosso público:
Exemplo 1:
O desempenho económico de Moçambique é assimétrico, pois verifica-se uma grande concentração de lucro das empresas extractivas. Isto torna o país cada vez mais dependente da indústria e das receitas do gás e das mineradoras. É necessário que o Governo encontre soluções para fomentar o crescimento de outros sectores, com destaque para a agricultura…
Acima vemos um texto muito simples, mas sem identidade. Supomos que a ideia venha de um empresário e líder de uma organização empresarial e tem como público os leitores de um jornal diário ou um público extremamente diversificado no LinkedIn:
Exemplo 2:
Em Moçambique há uma grande fosso entre os lucros das empresas da indústria extractiva e as dos outros sectores económicos. Acostumamo-nos com esta realidade sem olhar para a vulnerabilidade que isto acarreta, desde a dependência fiscal do Estado à competitividade quase desleal por melhores colaboradores. Convido a todos a reflectir e a tentar agir seriamente sobre este problema como uma nação com objectivos claros: desenvolver em todas as esferas…
O segundo exemplo é muito mais posicional, revela um sentimento e já diz muito sobre quem esse autor é. Um texto bem-feito é mais que um amontoado de frases gramaticamente correctas. Um bom texto no LinkedIn ou no jornal é uma marca identitária do autor. O seu texto deve ser a continuidade da sua voz, aquela que soa naturalmente seguindo a entonação do seu sotaque. Chegado ao fim, fica claro que este artigo foi escrito sobre Personal Brand Voice.
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